Novidades Fevereiro 2009

O ano novo se inicia com algumas boas notícias:

  • O curta Avenca está quase finalizado, e deve ser lançado ainda no primeiro semestre. Em breve, mais informações na página do curta, neste blog.
  • O mesmo pode ser dito do livro de crônicas Rodapés, cujos originais foram mandados para revisão no começo de fevereiro.
  • O vídeo Eu que nem sei francês segue sua carreira, após ser selecionado para seis festivais desde que foi lançado (o próximo será a Mostra do Filme Livre, em abril, no Rio de Janeiro). Ele também foi indicado na categoria Melhor Filme, no prêmio Omelete Marginal, realizado pelo site Intervenções Urbanas, em Vitória, em dezembro de 2008.
  • E aproveito pra agradecer a todos que votaram em mim, garantindo a premiação na categoria Literatura do Omelete Marginal. Afinal, essa vitória é de todos nós, né?

Pra finalizar, duas belas resenhas que meu livro recebeu nos últimos meses: uma do Carlos Calenti, no Século Diário, e outra da Claudia Rangel, publicada no Portal Literal e no Overmundo.

E um bate-papo com Janaína Azinaro, numa entrevista bem legal, realizada aqui em casa, no final do ano passado.

Novidades Setembro 2008

A partir deste mês, passo a fazer parte do quadro efetivo do Departamento de Comunicação Social da UFES, como professor assistente.

Meu sexto curta-metragem, Avenca, acaba de ser aprovado no Edital de Finalização de Curtas-metragens da Secult-ES, de modo que será ampliado para 35 mm ainda este ano e finalmente lançado.

Outro projeto aprovado nos editais da Secult-ES foi o livro Rodapés, vencedor na categoria Crônicas do Edital para publicação de obras literárias 2008. Ele reune algumas das crônicas publicadas no site Século Diário entre 2005 e 2007 e deve ser lançado até o primeiro semestre de 2008.

Novos artigos teóricos produzidos (ou a caminho)

Selecionado para o XXXI Congresso da Intercom, realizado em setembro de 2008, o artigo “O tempo da  pintura videográfica: Reflexões sobre os usos do plano-seqüência em Cinco, de Abbas Kiarostami” pode ser lido neste link.

Um novo desdobramento da pesquisa será apresentado no XII Encontro Internacional da Socine, a ser realizado na UnB, em Brasília, entre os dias 15 e 18 de outubro de 2008. Trata-se do artigo “Anotações sobre o plano-seqüência: flutuações do corpo entre paisagens transculturais contemporâneas”, atualmente em fase de finalização. E, em novembro, será apresentado o texto: “Afetos transitórios: reflexões sobre o tempo em O céu de Suely“, no III Coneco, na UFRJ.

Ainda em outubro, devo participar, ao lado de Tadeu Capistrano, de um debate a ser realizado na ECO-UFRJ, sobre a obra do cineasta Apichatpong Weerasethakul, um dos principais nomes do cinema mundial contemporaneo, realizado pelo Forum de Ciência e CulturaUFRJ.

NOVIDADES

Vamos às novidades neste site:

Os quatro primeiros curtas de Erly Vieira Jr estão agora disponíveis para streaming no Porta Curtas.

Já o novo vídeo, Eu que nem sei francês, está disponível no YouTube.

Quatro contos do livro -sse estão disponíveis neste link.

O livro de contos -sse já pode ser adquirido em Vitória no Sebo República das Letras (em duas filiais: uma na Rua da Lama/Jardim da Penha e outra em Jardim Camburi) ou pela internet, no site Estante Virtual.

O DVD Algumas Estórias também pode ser comprado (R$ 10,00) no Sebo República das Letras, na Banca da Carol (Jardim da Penha) e na Livraria da Ufes.

Uma entrevista recente de Erly pode ser conferida no Blog do Caderno Dois de A Gazeta.

Outra entrevista, realizada pelo programa capixaba Em Movimento, da TV Gazeta (afiliada da Rede Globo no ES) durante a Mostra Desconstrução, está disponível no YouTube.

Apresentação

Este espaço é uma tentativa de reunir boa parte da minha produção cultural, em suas principais vertentes:
• artigos acadêmicos, principalmente na área de audiovisual;
• textos produzidos para sites e colunas, nas áreas de literatura, audiovisual, artes visuais e afins;
• produção literária: contos, crônicas, poemas e poemas visuais;
• links para obras audiovisuais;
• registros fotográficos e videográficos de eventos e ações culturais das quais eu tenha participado;
• resenhas, matérias e entrevistas acerca de trabalhos meus.
A intenção, contudo, vai mais além de fazer daqui uma espécie de “portfolio organizado”. A idéia é de disponibilizar material para que os visitantes possam comentar, discutir, discordar… levantar questões as mais diversas sobre cada ponto de vista presente nesses trabalhos. Muito mais um ponto de partida para entusiasmadas discussões do que uma arrumação de gaveta do criado-mudo, num esquecido cômodo qualquer da memória.

Minha produção audiovisual

macabeia-3.jpg

Macabéia foi o meu primeiro trabalho como roteirista e diretor. Vencedor do I Concurso de Roteiros (V Vitória Cine Vìdeo, 1998), o filme (que foi co-dirigido por Lizandro Nunes e Virgínia Jorge) ficou pronto em 2000 e teve uma carreira muito bem sucedida no circuito nacional de festivais, faturando seis prêmios, entre eles Melhor Curta, Melhor Roteiro e Melhor Atriz na categoria 16 mm do Festival de Gramado (2001).

pour-elise-redux.jpg

Pour Elise foi o segundo filme, também realizado com recursos da Lei Rubem Braga, rodado em 2003 e lançado em 2004. Teve uma carreira bem mais modesta que o seu antecessor, mas é o primeiro trabalho em que eu exploro a idéia de um meta-cinema.

zara-saudosa-e-tonha-na-radio-leve.jpg

Saudosa, escrito e dirigido juntamente com Fabrício Coradello, é um pseudo-documentário que, no fundo, não quer deixar muito claro onde termina o real e começa a ficção, e vice-versa. Realizado com recursos da Lei Rubem Braga e lançado em 2005, ele foi rodado em apenas 4 dias, na cidade de Muniz Freire, quase na divisa com Minas Gerais, e o elenco era composto totalmente por “não-atores”. Um artigo bem interessante sobre o curta, escrito pelo Prof. João Barreto, encontra-se neste link.

reduzida.jpg

Grinalda foi realizado como uma espécie de “filme de câmara”: apenas eu atrás das câmeras e a atriz Letícia Braga interpretando. Em lugar de um roteiro convencional, eu dava situações para a atriz que lhe serviam de pontos de partida para uma série de improvisações acerca dos relacionamentos afetivos. O uso insistente do plano fechado, com a personagem dirigindo o olhar diretamente para a lente da câmera, e o tom surrealista dos depoimentos, extremamente confessionais, buscou dialogar com a estética dos programas sensacionalistas de televisão. A edição buscou ao máximo manter o caráter de improviso da encenação: gaguejadas, lapsos, tempos mortos, tudo isso foi mantido de modo que o espectador pudesse presenciar, sempre que possível o momento em que o texto se constrói. O vídeo está disponível no YouTube.

Nos dias 20 e 21 de março de 2007, realizou-se a I Mostra Curta Grav, e no segundo dia da mostra foi exibida uma retrospectiva dos meus quatro curtas (Macabéia, Pour Elise, Saudosa e Grinalda), seguida de um debate com os membros do Grav, projeto de extensão do Departamento de Comunicação Social da Ufes dedicado ao estudo e prática da crítica cinematográfica (sob orientação do Prof. Dr. Alexandre Curtiss).

No site do evento, há uma entrevista comigo e um artigo crítico bem interessante do Rodrigo de Oliveira (Contracampo), que analisa as conexões entre os quatro curtas. O texto do Rodrigo, que foi publicado  no primeiro número da revista Milímetros, editada pela ABD&C-ES em junho de 2008, pode ser lido também aqui.

capa-dvd-leve.gif

O dvd Algumas Estórias reúne os quatro curtas ficcionais exibidos durante a I Mostra Curta Grav. Trata-se de um projeto realizado com recursos da Lei Chico Prego, da Prefeitura Municipal da Serra, lançado em julho de 2008. Os quatro curtas estão disponíveis para streaming no site Porta Curtas, neste link.

3.jpg

twilight # 1

2.jpg

twilight # 2

Twilight #1 e #2 (disponíveis para streaming no YouTube) foram produzidos para serem exibidos no Festival Dispositivo, realizado pelo Cineclube Falcatrua entre os dias 17/11 e 30/12 de 2006, no Paço das Artes, em São Paulo. O festival (cujas imagens podem ser vistas aqui) consistia numa mostra de vídeos rodados em um único plano-seqüência. Escolhi, então, dois planos de Pour Elise, reeditei o áudio, utilizando o tema das caixinhas de música presente no curta original, brinquei com a velocidade da imagem e o resultado são dois vídeos, sem cortes de imagem, com duração de um minuto cada.

O mais recente dos meus curtas é Eu que nem sei francês, realizado em 2008, novamente com Letícia Braga. O vídeo recebeu o Prêmio Reconstrução, como melhor curta da IV Mostra de Produção Independente (ABD&C-ES), dividindo a premiação com Fracasso, de Alberto Labuto. Espécie de “lado b”do Grinalda, ele pode ser assistido no YouTube.

================

OUTRAS ATIVIDADES AUDIOVISUAIS

Durante algum tempo, trabalhei em filmes de amigos, exercendo algumas funções técnicas. São eles, do mais recente ao mais antigo:

  • JOÃO (curta-metragem, 35 mm), de Carlos Augusto de Oliveira, em finalização (rodado em 2006). (Direção de Arte)
  • VITÓRIA DE DARLEY (curta-metragem, 35 mm, 2006), de Renato Rosati. (Direção de Arte)
  • MANOELA (curta-metragem, 35 mm), de Fabrício Coradello. Vitória, 2002. (Assistente de direção)
  • BASEADO EM ESTÓRIAS REAIS (curta-metragem, 35 mm), de Gustavo Moraes. Vitória, 2002. (Direção de Arte). Por esse filme, eu e a produtora de arte Rosana Paste recebemos o prêmio Best Production Designer, no Columbia University Film Festival (Nova Iorque, 2003).
  • ESCOLHAS (curta-metragem, 16 mm), de Ana Murta. Vitória, 2003. (Assistente de Arte) Obs: o filme foi rodado em 2001, mas só ficou pronto em 2003.
  • DE AMOR E BACTÉRIAS (Super-8/Betacam). Direção de Virgínia Jorge. Vitória, 1999. (Direção de Arte)

================

OFICINAS DE VÍDEO

Desde 2002, ministro oficinas de vídeo para adolescentes em diversos projetos sociais na Grande Vitória. Mais detalhes aqui.

Resenha de Rodrigo de Oliveira sobre meus filmes

Erly Vieira Jr.: O cinema na fronteira
Por Rodrigo de Oliveira
Diante da filmografia de Erly Vieira Jr., não parece difícil perceber sobre o que cada trabalho quer extrair daquilo que encena e propõe. Há em toda a obra um desejo aberto pelo processo de fabricação do cinema, filmes que são making of de si mesmos; uma disposição em construir os dramas a partir do contato íntimo com a natureza dos personagens centrais (todos eles femininos), e assim se deixar contaminar por tudo aquilo que encante ou desafie estas pessoas, tornar os sentimentos de um protagonista também os sentimentos do filme que se faz sobre ele; trabalhar sempre num registro entre a ironia e a ilusão, nunca propriamente naturalista. Mas se podemos saber como os curtas de Vieira Jr. se apresentam aos nossos olhos, nunca temos certeza total do lugar em que se apóiam. Talvez porque Macabéia, Pour Elise, Saudosa e Grinalda não sejam narrativas de instalação, mas filmes que respiram a oportunidade de não ter um território próprio e definitivo. Estamos tratando de um cinema que vive limites, que nasce na intersecção de vários campos artísticos. Seu lugar não é na ficção ou na realidade, no drama ou na comédia, no presente ou no passado, mas exatamente nas fronteiras traçadas entre um e outro.
Nos dois primeiros filmes essa idéia de fronteira é tomada como tema, e veremos em Macabéia (1999) e Pour Elise (2004) a materialização desses limites nas protagonistas. Marluce, a do primeiro, nasce do contato entre duas instâncias de autoria. De um lado temos Clarice Lispector, e do outro três jovens diretores de cinema (além de Vieira Jr., também Lizandro Nunes e Virgínia Jorge) que se apropriam do livro não só enquanto o testemunho textual de uma trajetória de vida, mas como a possibilidade de enxergar ali dentro outros caminhos, às vezes até opostos aos da obra original, mas de alguma forma já contidos nela. A via paralela à literatura é o mergulho naquilo que há de mais substancialmente cinematográfico, e o destino de Macabéia, travestida de Marluce, parece por um momento ser o mesmo no livro e no filme: é o que nos faz supor a conversa amistosa entre a protagonista e seu namorado, final reconciliatório interrompido por um atropelamento. Mas não é Marluce ali deitada no chão, sangrando pela boca, como um dia acontecera com Macabéia, e o uso do suspense, da tragédia que apenas ouvimos, mas já supomos ser real, serve mesmo para ratificar a decisão da moça em abandonar aquela vida de infortúnios. Marluce também esteve o tempo inteiro numa zona limítrofe, entre a descrença e a certeza de um futuro. Sua hora da estrela, no entanto, já tinha sido alterada, por sua própria vontade. Numa simpatia de nós na fita do Senhor do Bonfim esteve, desde o começo, a discussão sobre as fronteiras da fé.

Pour Elise vai além. Tendo a fé sido absorvida enquanto uma possibilidade real de transformação dos destinos (Macabéia morta x viva), agora não só o futuro será elemento ativo de construção das trajetórias destes personagens. Temos uma tia num asilo e sua sobrinha, restabelecimento de um contato geracional perdido. Entre as quinquilharias acumuladas pela velha e as investidas da sobrinha por este universo íntimo-histórico do qual nunca tomou parte, seremos colocados no limite entre a memória e sua atualização, e há, nos passeios de barco que as duas fazem pelo tempo, menos um delírio de fundo saudosista que uma verdadeira apresentação a um novo mundo, tão real e palpável quanto as caixinhas de música ao longo do filme. A tia leva a sobrinha ao passado; morre, e assim permite que a menina assuma seu lugar, mas não apenas enquanto figura borrada numa fotografia antiga. Elisa encerra em si a memória, a atualidade e a projeção de um futuro (o relacionamento perdido com o rapaz de cachecol vermelho é finalmente recuperado), e posa como guardiã ativa destas fronteiras do tempo.

E sendo exatamente a fé e o tempo os mais fundamentais elementos da experiência cinematográfica (diante de um filme é preciso, acima de tudo, crer em sua capacidade de encapsular a temporalidade da vida e reproduzi-la num negativo), no terceiro trabalho do diretor já não teremos mais um desdobramento meramente temático: Saudosa é a própria fronteira, uma espécie de reportagem do momento em que dois autores (o filme é co-dirigido por Fabrício Coradello) se chocam com a vida, e desse contato direto, da explosão surgida a partir dele, nem ficção nem documentário, mas o próprio cinema, sem disfarces, paira soberano, ele mesmo de natureza puramente fronteiriça – mistura de todas as artes, mas ao mesmo tempo arte única entre elas. Há um deslumbre incontido com a oportunidade de trafegar pela realidade e pela invenção, estabelecer uma falsa diferenciação entre as duas (um depoimento “real” do suposto documentário sobre a poetisa Saudosa sempre é precedido pelas instruções que os diretores dão aos personagens da vida real sobre o que devem “testemunhar”) para, no fundo, defender sua hibridização, atestar que por dentro delas corre um mesmo sangue, algo que poderíamos chamar de “verdade”, não como valor absoluto, mas como antídoto à idéia de uma “mentira”. Saudosa, a personagem, é tão verdadeira quanto a disposição dos diretores em inventá-la. Saudosa , o filme, tem nas veias o Cinema com C maiúsculo, essa verdade a 24 quadros por segundo.

Grinalda é a saída mais corajosa de uma cinematografia que chegara, ao final do terceiro filme, à própria natureza e materialidade do discurso artístico em que se inscrevia. Aqui várias das noções espalhadas nos trabalhos anteriores são radicalizadas. Isto só é possível porque a instância autoral deixa de ser auto-reflexiva (lembremos da cena de Macabéia em que Marluce se arruma para o reencontro com o namorado, uma colagem de momentos em que a atriz ri, olha para a câmera, brinca com a equipe do filme, ou ainda dos três velhinhos que são os verdadeiros fabuladores da trama de Pour Elise, e que na cena final recebem a visita de um quarto, o próprio Erly Vieira Jr., e também de toda a construção de Saudosa, onde a figura dos diretores merece o mesmo registro que as ficções que ali se estão apresentando). Grinalda não é mais o estudo sobre os limites da representação, como haviam sido os outros filmes. As fronteiras parecem ter sido suficientemente desbravadas, e aqui Erly Vieira Jr., pela primeira vez, admite um território, se instala num lugar que é o do próprio cinema e de suas possibilidades. O que Grinalda parece nos dizer é que qualquer filme é sempre um documentário sobre a ocorrência da ficção no mundo: estamos diante de uma grande atriz, Letícia Braga, num exercício livre de improviso, e cabe à câmera não mais que testemunhar esta pessoa da vida real criando, minuto a minuto, novos personagens da vida imaginária, e cabe ao diretor não mais que eventualmente estimular esta invenção através de artifícios claramente definidos (uma visita a um cemitério, saquinhos de chá com fotografias). Chegamos a uma espécie de pedra fundamental do cinema contemporâneo, que precisou de todo o trabalho dos cinemas anteriores na investigação dos limites entre vida e arte para, finalmente, poder se estabelecer, anos 2000 batendo à porta, como o espaço privilegiado para a implosão desta distância. “É tudo uma coisa só”, parece nos dizer o trabalho de Erly Vieira Jr. E assim, sem diferenças, tudo fica muito mais divertido.