Pour Elise vai além. Tendo a fé sido absorvida enquanto uma possibilidade real de transformação dos destinos (Macabéia morta x viva), agora não só o futuro será elemento ativo de construção das trajetórias destes personagens. Temos uma tia num asilo e sua sobrinha, restabelecimento de um contato geracional perdido. Entre as quinquilharias acumuladas pela velha e as investidas da sobrinha por este universo íntimo-histórico do qual nunca tomou parte, seremos colocados no limite entre a memória e sua atualização, e há, nos passeios de barco que as duas fazem pelo tempo, menos um delírio de fundo saudosista que uma verdadeira apresentação a um novo mundo, tão real e palpável quanto as caixinhas de música ao longo do filme. A tia leva a sobrinha ao passado; morre, e assim permite que a menina assuma seu lugar, mas não apenas enquanto figura borrada numa fotografia antiga. Elisa encerra em si a memória, a atualidade e a projeção de um futuro (o relacionamento perdido com o rapaz de cachecol vermelho é finalmente recuperado), e posa como guardiã ativa destas fronteiras do tempo.
E sendo exatamente a fé e o tempo os mais fundamentais elementos da experiência cinematográfica (diante de um filme é preciso, acima de tudo, crer em sua capacidade de encapsular a temporalidade da vida e reproduzi-la num negativo), no terceiro trabalho do diretor já não teremos mais um desdobramento meramente temático: Saudosa é a própria fronteira, uma espécie de reportagem do momento em que dois autores (o filme é co-dirigido por Fabrício Coradello) se chocam com a vida, e desse contato direto, da explosão surgida a partir dele, nem ficção nem documentário, mas o próprio cinema, sem disfarces, paira soberano, ele mesmo de natureza puramente fronteiriça – mistura de todas as artes, mas ao mesmo tempo arte única entre elas. Há um deslumbre incontido com a oportunidade de trafegar pela realidade e pela invenção, estabelecer uma falsa diferenciação entre as duas (um depoimento “real” do suposto documentário sobre a poetisa Saudosa sempre é precedido pelas instruções que os diretores dão aos personagens da vida real sobre o que devem “testemunhar”) para, no fundo, defender sua hibridização, atestar que por dentro delas corre um mesmo sangue, algo que poderíamos chamar de “verdade”, não como valor absoluto, mas como antídoto à idéia de uma “mentira”. Saudosa, a personagem, é tão verdadeira quanto a disposição dos diretores em inventá-la. Saudosa , o filme, tem nas veias o Cinema com C maiúsculo, essa verdade a 24 quadros por segundo.
Grinalda é a saída mais corajosa de uma cinematografia que chegara, ao final do terceiro filme, à própria natureza e materialidade do discurso artístico em que se inscrevia. Aqui várias das noções espalhadas nos trabalhos anteriores são radicalizadas. Isto só é possível porque a instância autoral deixa de ser auto-reflexiva (lembremos da cena de Macabéia em que Marluce se arruma para o reencontro com o namorado, uma colagem de momentos em que a atriz ri, olha para a câmera, brinca com a equipe do filme, ou ainda dos três velhinhos que são os verdadeiros fabuladores da trama de Pour Elise, e que na cena final recebem a visita de um quarto, o próprio Erly Vieira Jr., e também de toda a construção de Saudosa, onde a figura dos diretores merece o mesmo registro que as ficções que ali se estão apresentando). Grinalda não é mais o estudo sobre os limites da representação, como haviam sido os outros filmes. As fronteiras parecem ter sido suficientemente desbravadas, e aqui Erly Vieira Jr., pela primeira vez, admite um território, se instala num lugar que é o do próprio cinema e de suas possibilidades. O que Grinalda parece nos dizer é que qualquer filme é sempre um documentário sobre a ocorrência da ficção no mundo: estamos diante de uma grande atriz, Letícia Braga, num exercício livre de improviso, e cabe à câmera não mais que testemunhar esta pessoa da vida real criando, minuto a minuto, novos personagens da vida imaginária, e cabe ao diretor não mais que eventualmente estimular esta invenção através de artifícios claramente definidos (uma visita a um cemitério, saquinhos de chá com fotografias). Chegamos a uma espécie de pedra fundamental do cinema contemporâneo, que precisou de todo o trabalho dos cinemas anteriores na investigação dos limites entre vida e arte para, finalmente, poder se estabelecer, anos 2000 batendo à porta, como o espaço privilegiado para a implosão desta distância. “É tudo uma coisa só”, parece nos dizer o trabalho de Erly Vieira Jr. E assim, sem diferenças, tudo fica muito mais divertido.
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