
Conto publicado no livro “Escritos de Vitória” (Volume 22: Cine Vídeo). Exercício puramente ficcional narrado em primeira pessoa.
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A MARGEM VAZIA
Erly Vieira Jr
São duas ou três (talvez quatro) as coisas das quais me recordo dos tempos de moleque. Rolimã. Shazam e Xerife. Os pés descalços na grama enlameada, macia, do quintal dos fundos. E o estilingue gigante. Na verdade, era uma árvore em forma de Y no meio da rua. Um dia ela apareceu pintada de amarelo, com uma tira de plástico gigante amarrada nela e um monte de gente ao redor, mas nenhuma criança brincava perto dela. Só gente grande.
Bom mesmo era passear pela mata da Pedra dos Dois Olhos. A gente juntava um grupo de meninos e ia brincar de desbravador, como nos livros de história. Eu devia ter uns dez anos, com certeza era 1973. Eu já tinha amigos de carne e osso, e também amigos imaginários. Às vezes, estes eram mais interessantes que aqueles. Outras vezes, não. Hoje, de ambos conservo a brisa e a fuligem. Mas foi porque todo mundo preferiu jogar bola de gude que acabei saindo sozinho, um dia.
Estavam todos lá: um grupo de pessoas, jeans, sandálias e cabelos compridos. A moça da prancheta anotando alguma coisa, outro moço com uma câmera, alguém gritando “vai rodar”. Eu, quietinho, perto duma árvore, olhando tudo, sem entender muita coisa: um bando de gente parada olhando uma mulher que saía de uma cabana com um cesto e estendia roupas no varal e depois tirava tudo e estendia de novo. E de novo. E de novo. Brincadeira engraçada, essa deles.
Um tempo depois, pararam de olhar, alguém disse “valeu” e cada um foi prum canto. A moça da prancheta recolheu as roupas ainda molhadas no varal e guardou na kombi toda colorida. Um rapaz passou perto de mim e eu perguntei o que era aquilo e ele: “É filme”. “Filme?”, “É, filme… de cinema”, e eu: “Ah, bem… E vai passar onde?” Ele sorriu e foi se juntar aos outros, iriam rodar outra cena.
Dessa vez a mulher entrava na cabana, depois se encostava na porta, olhando pra longe — parecia que ela errava toda hora, porque sempre repetiam a cena. E eu junto à árvore, atento. Até que alguém achou melhor que tivesse um menino brincando perto da mulher e me chamaram. E eu fiz minha cena de primeira e todo mundo gostou.
Aí fui pra casa e no dia seguinte convenci mamãe a fazer um café pra levar pros moços do filme, vai ver estavam precisando. No fundo, eu só queria estar lá de novo. Mamãe adorava esse negócio de fazer café pros outros: eu lembro que quando desabou a encosta no Morro do Macaco, muitos anos depois, ela me acordou, polifônica e atabalhoada, porque alguém tinha de levar o café que ela preparou para os bombeiros que ajudavam no resgate.
Nos dias seguintes, eu sempre aparecia bem cedo na filmagem com duas garrafas de café. E acabei virando mascote da equipe, tinha até apelido, mas desse nem me lembro mais. Devia ser toco, pitoco, sei lá. Foi a atriz que começou a me chamar assim, com um sorriso. Um sorriso tátil, cinético, lívido. Ainda nítido neste momento.
Eu gostava de ficar vendo tudo e ajudar em alguma coisa, tipo afixar pedaços de fita crepe debaixo dos objetos para a moça da prancheta. Mas o que eu gostava mais era quando gritavam “silêncio, vai rodar” e todo mundo em silêncio e às vezes eu estava chegando com a garrafa de café nessa hora e parava feito estátua pra não me mexer nem fazer ruído. Hora sagrada: ninguém se mexe, a mente se esvazia, como se fosse aquele instante antes do espirro, em que os cinco sentidos se calam. Às vezes, assim como fazia com as músicas de que gostava, eu fechava os olhos pra escutar melhor esse silêncio.
O rapaz do microfone costumava fazer pequenos truques de mágica pra mim. Um dia ele não estava mais com o grupo. Nada se falou a respeito, só pude pegar uma frase cochichada pelo rapaz da luz para o assistente barbudo: “Pô, mas pegaram logo o Vermelho…”. Com a ausência dele, deram-me o comando do microfone. Eu era o menor de todos, podia me enfiar em qualquer cantinho pra me posicionar, de modo que o câmera não reclamasse que o microfone estava aparecendo em quadro. Devezenquandariamente, o técnico de som tirava os fones do ouvido e colocava nos meus, para eu ouvir o som captado. Meus olhos cerrados, sempre.
Numa cena, em Manguinhos, num dia em que saí de casa escondido de meus pais, o ator subiu nos rochedos, vestido de fraque, com uma batuta. Ébrio, regia aos soluços o mar bravio. Em seguida, gravamos o som da ressaca. Subi nos rochedos, empunhando o gigantesco microfone. Quando o técnico deu o sinal, não me contive e pus-me também a reger as ondas com meu estandarte. Sonoras gargalhadas rasgavam o aroma da maresia.
A última cena seria no mangue. A atriz fugia num bote, escondida, e só erguia o rosto lentamente aos primeiros raios da manhã. O vento desgrenhando os cabelos cacheados à altura dos ombros, o olhar num ponto distante, lábios ressecados levemente trêmulos. Eu nada sabia da história do filme, mas era visível que naquele momento a personagem vislumbrava algo novo e incerto. “Ela mente como respira”, comentou o assistente barbudo para o rapaz da luz, durante o ensaio para a câmera.
Naquele instante, um torvelinho no peito, anunciando que tudo logo estaria terminado e no outro dia eu retornaria à rotina do rolimã, das bolas de gude, da grama macia, molhada.
Iríamos rodar. Um momento bastante difícil. Uma cigarra solitária perfurava o silêncio. Parou-se a filmagem. Esperamos alguns minutos e nada. Eu tremia, já não agüentava estar agachado tanto tempo no fundo do bote, segurando o microfone. Fechei os olhos. A cigarra parecia cantar cada vez mais forte. Esforcei-me para imaginar que a cigarra se calava. Aos poucos seu canto foi minguando, minguando… “Pode rodar!”. Meus olhos bem fechados, acreditava que assim manteria a cigarra silenciosa. Afinal, eu era forte.
Despediram-se de mim com sorrisos descompromissados, aos quais respondi solenemente. O tempo se passou e nunca mais ouvi falar do filme. Aliás, meu contato com filmes nos anos seguintes restringiu-se aos vídeos amadores de viagem com a família. Aos quais nunca assistia quando retornava das férias. Mudei-me para o Rio, fui trabalhar na Bolsa, aprendi a gritar nos pregões e aos poucos perdi o medo do mar, nas viagens diárias de barca para a Praça Quinze.
E foi na barca, na curiosidade de ler o jornal do passageiro no banco da frente para matar o tempo, que a cigarra transbordou a lembrança: a sessão comemorativa dos trinta anos do clássico independente A margem vazia. Havia uma foto da cena da cabana no jornal. Não preciso descrever o susto que tomei. A exibição iria rolar no CCBB, às seis, pertinho do trabalho, dava até pra ir a pé no final do expediente. Engraçado, as fisionomias esquecidas de todos vieram-me à mente, imediatas. Sorria a todos, timidamente, talvez o mesmo garoto daqueles anos.
No fim da tarde, já estava à porta do cinema. Havia um engraçadíssimo homem-sanduíche distribuindo panfletos do filme, como devia ter ocorrido nos cinemas da época. Na ficha técnica, o crédito “Microfonista: Pitoco”. Eu nem sabia. Olhei para os lados, nenhum rosto conhecido. Também, ninguém iria me reconhecer, passados todos esses anos.
Sinopse do filme, segundo o panfleto: Jovem maestro se apaixona por jovem casada, maltratada pelo marido. O jovem propõe que fujam. Combinam a fuga num bote de madeira ao anoitecer. Ela não vem. Ele abandona o bote e se embriaga, perambula pela praia deserta, sobe nos rochedos e joga-se no mar revolto. Ela só consegue chegar ao local combinado no fim da madrugada. Sozinha, ela parte e somente ao amanhecer poderá contemplar a liberdade.
Iniciada a projeção, era só fechar os olhos que me retornavam os sons de cada momento da filmagem, as conversas e brincadeiras da equipe, as fitas crepes da moça da prancheta, os comandos do diretor, o “vai rodar”. E também os respectivos silêncios do set. Mas também não queria perder nenhuma cena, tanto que abria os olhos logo em seguida. E assim foi durante toda a projeção.
Até que amanheceu sobre o bote à deriva. E o rosto de Taciana surgia por detrás da borda do barquinho. O olhar distante, o cabelo desgrenhado. O torvelinho no meu peito. Já não havia rolimã, bola de gude, grama macia, molhada. Através dos meus olhos ela chorava. Não resisti e fechei-os, era o mais confortável dos silêncios a me preencher. Meus lábios ressecados levemente trêmulos. Nunca saberia o final da história, pouco importava. No caminho de volta, as palavras sempre escorrem pelos traços do rosto.
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Percurso Literário « disconnect the dots // Sexta-Feira, Julho 25, 2008 às 2:49 pm |
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