disconnect the dots

instantâneo

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O livro Instantâneo (2005) foi o resultado de um amplo mapeamento literário que realizamos quando eu estava no cargo de Coordenador de Humanidades da Secult-ES. Após realizarmos o mapeamento, procurei o Reinaldo Santos Neves e juntos organizamos uma coletânea com os nomes mais relevantes dentre os escritores capixabas da geração 90 e 00 (que haviam despontado no cenário local ou nacional até 2004) . Foram 38 participantes, com textos de poesia e prosa. Eu também participei com um conto, “Quase Dezembro”.

Para ler o prefácio escrito por Reinaldo Santos Neves, clique neste link.

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QUASE DEZEMBRO

Erly Vieira Jr

Acordei desmemoriado de meu próprio corpo. Os olhos, entreabertos como a porta do quarto. Por mais que os fechasse, impossível recordar o próprio rosto. Sem a certeza de haver braços e pernas, preferi não correr riscos: permaneci deitado, imóvel.

(Já não era o primeiro desmembrar-se de mim: aos quinze, por dois dias o ouvido amotinado preferiu voltar-se aos sons da respiração. Aos dezesseis, os olhos vestiram-se de óculos, possibilitando a opção pelo desfocar).

Com a altivez de quem rasura um boletim escolar, comecei a criar um corpo com o que me lembrava de outros. Preferi formas arredondadas, rechonchudas: queria-me amplo, espaçoso, tal qual me sentia. Corpulento. Depois de tantos rodeios, confesso: optei-me gordo.

No rosto, um sorriso esquecido em alguma curva do dia anterior: impávido, incômodo, inimaginado.

E os cabelos?

Curtoscompridoslisoscrespospartidosdeladoescorridos?

Costeletas em L. Compridas, estreitas, até quase o queixo. Dessa vez bigode. Descompromissadamente plano.

Algum suor nas têmporas, nenhum rubor no rosto. Amplos pulmões para furtar o fôlego dos passantes. Dedos inquietos, elegantes como gotas de mercúrio.

A perna me surge com a mesma tremedeira da primeira bronha. Circuncidado? Ou não? (Isso depois eu decido).

Levanto-me, atravesso o corredor e a sala. Sento-me ao piano. No ar, cinco linhas da pauta cruzadas às hastes da nota, riscas de giz. Toco alguns compassos. Acompanha-me um quarteto de cordas. Talvez um ligeiro espanto. Memória? Um papel timbrado repleto de garranchos, muitas vezes sobrepostos. De vez em quando a tinta se apaga.

Memória é um solfejo desafinado. Um pedaço de papel dobrado em quatro que cai de uma gaveta toda vez que ela se abre. E o sempre mesmo procedimento: recolho o papel, leio seu conteúdo, corrijo alguns acentos, devolvo-o a seu lugar e dele rapidamente me esqueço, até que, desavisado, abra a gaveta outra vez.

Tentando relembrar o rosto do pai, a partir de um retrato que não corresponde ao que trago na memória. Tão estranha esta missão: recordar algo que trago no nome, essa tatuagem que prescinde de corpo. Mais que cicatriz.

Pensamentos prolongados, arremessados às alturas: por vezes o pai me acena, o sorriso escondido na secura desse aceno, num impercebido franzir de lábios. Depois de dezessete anos, qualquer um desses gestos retorna-me solene. Inclusive a ordem de entrada da família no carro, no passeio de domingo. Decerto, o rosto não é o mesmo do retrato no criado-mudo.

Certa vez, a mãe reclamou que ronco. Não sei se o fazemos da mesma forma, mas à menção da palavra roncar, associo o som que o pai emitia toda tarde no sofá cochilento. Roncar para mim era repetir a respiração do pai, seus travessões, pontos, vírgulas. Quando guri, imitá-la era meu mais freqüente passatempo.

Eu queria mesmo era contar uma estória de cavalinhos coloridos empinados num pasto. Ainda guri, comecei a escrevê-la até a quarta linha, até que errei uma palavra e percebi não haver borracha. A primeira rasura, entre o risco e a continuação do texto. Na costura, a agulha perfura novamente, repetidas vezes. Menores feridas.

Parágrafos depois, perdi o interesse pelos cavalos.

Deparo-me com uma escada. Amparado pelo corrimão, desço os degraus. Nunca imaginei ter que reaprender a andar. Um pé, depois outro, formigamento, alguma cãibra. Como se lesse uma fileira de proparoxítonas sem acento, seguidamente, num fôlego só: impavidoincomodoinsolitointrepidopali dosimpaticomagico. Como se cantarolasse. De tão musicais, as palavras sem acento oscilam indistintas e quase tropeçam na soleira da porta. Dormentes.

Saio de chinelos, camisa de voile e calça surrada, parecendo fiel da Deus é Amor. Ladeira abaixo. Há um parque perto daqui. Girassóis. Amarelo. Solitário, descalço, resisto.

É evidente que chove no final. E é claro que deito no chão pra molhar apenas metade de mim (costumo imitar os livros que leio). É claro, transparente como o céu que se abre após a chuva ligeira.

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