-sse é um livro que reúne 14 contos em primeira pessoa (e um poema intrometido), produzidos entre 2002 e 2006. Selecionado pelo II Edital para Publicação de Obras Literárias Inéditas da Secult-ES (2006), o livro foi publicado em 2008, e seu conteúdo está totalmente licenciado em Creative Commons, sendo permitida sua cópia irrestrita (física ou digital), desde que creditada a autoria e que não seja alterado o texto original. A ilustração de capa é de David Caetano.
O livro foi o vencedor na categoria Literatura, dentro do prêmio Omelete Marginal, realizado no Espírito Santo, em dezembro de 2008.
Abaixo, quatro dos contos presentes no livro. O meu predileto é o último da lista, Muito Leve.

VEZ POR OUTRA
Erly Vieira Jr
É que em meu quarto o objeto que mais me fascina é um velho globo, corrigido à mão. Desde a infância. Duas alemanhas, uma única iugoslávia. Tchecoslováquia. A tal da União Antiet… ops, Soviética. Tudo redesenhado, redividido, tracejado com canetinha hidrocor.
Que não são os únicos rabiscos do mapa.
Sim, eu tracejei percursos andarilhos imaginários. Aos dezesseis sonhava ser mochileiro.
E quando hoje eu crispo os lábios, esperando a chuva passar, sou todo olhos de menino. Daqueles que amanhecem na janela do segundo andar e acenam intermináveis aos passantes.
Vezenquando fechava os olhos sempre que inesperado ouvia um ruído sépia. E mantinha tremicerradas as pálpebras até que só restasse o gorjeio das cigarras. Vezenquando.
Afinal, eu também era menino e tive um amigo imaginário. Quase igual aos outros.
Incansáveis, entalhamos juntos incontáveis raios de sol no chão da sala. Vez por outra, retirávamos do bolso uma folha de caderno dobrada em quatro, que logo se transformava em ave ruidosa. Bastava dobrarmos a primeira esquina para sermos transportados a países e povos recém-inventados, costumes e idiomas apenas por nós compartilhados.
E então saíamos ruidosos a colorir descompassadamente meios-fios e entrelinhas da memória. Como se faltassem cinco minutos para o sol-pôr. Quase torvelinho. E o riso imprevisto feito quase recompensa.
Rodopiando, até que os pés esquecessem o chão e ensaiassem a brevidade do vôo.
Mas como um dia o amigo de mentirinha não apareceu mais, nem no dia seguinte, nem no outro, achei por bem gastar meu tempo esperando o cometa passar. Aquele que todo mundo esperou mas ninguém viu. Inclusive eu.
Afinal, eu também era menino. Quase igual aos outros. No dia em que fiz nove anos: Chernobyl. A notícia vazou quase uma semana depois. Peguei a hidrocor vermelha, desenhei uma nuvem sobre o mapa maisoumenos onde ficava a usina. Todo dia acompanhava o jornal, e aumentava o tamanho da nuvenzinha. Recontorno.
No terceiro dia, ela já cobria quase toda a União Sinestésica.
Dias depois, tudo era parca fuligem. Agora, a China bebia coca-cola. Eu não, preferia Baré, vendida na garrafa igualzinha à de cerveja.
E me entretinha decorando a letra de Olhar 43, ligava o rádio e, de caderno na mão, copiava verso por verso da letra. Quando acabava de tocar, mudava de estação. A toda hora, em algum lugar do dial, a música começava a tocar. Após três dias, terminara de copiar toda a letra. London, london foi mais difícil. Essa eu via no I love you, aquele programa da TVE que ensinava a cantar as letras em inglês. Mas de London London só decorei o refrão. Achava linda a expressão flying saucers. Mas morria de medo quando tinha reportagem no Fantástico sobre extraterrestres, caso Roswell, meteoro na União Anestésica. Vez por outra saía correndo da sala e me escondia debaixo do edredom até o programa terminar. Tremicerrado, lábios crispados.
O que a gente curtia mesmo era tirar onda no recreio: brincar de adulto no boteco, a gente comprava a garrafa de Baré, quatro copos descartáveis, sentava num banco no pátio, arrancava o rótulo da garrafa e trocava pelo rótulo de Malt 90 que o Maurício tinha catado do churrasco de fim de semana na casa dele. E a diretora passava o maior sabão, deixava uma semana sem recreio quando pegava a gente fingindo que tomava birita. Vezenquando voltava pra casa com um bilhetinho dizendo que fiquei de castigo em sala por mau comportamento.
Afinal eu também era menino. Quase igual aos outros.
========
QUASE DEZEMBRO
Erly Vieira Jr
Acordei desmemoriado de meu próprio corpo. Os olhos, entreabertos como a porta do quarto. Por mais que os fechasse, impossível recordar o próprio rosto. Sem a certeza de haver braços e pernas, preferi não correr riscos: permaneci deitado, imóvel.
(Já não era o primeiro desmembrar-se de mim: aos quinze, por dois dias o ouvido amotinado preferiu voltar-se aos sons da respiração. Aos dezesseis, os olhos vestiram-se de óculos, possibilitando a opção pelo desfocar).
Com a altivez de quem rasura um boletim escolar, comecei a criar um corpo com o que lembrava de outros: preferi formas arredondadas, rechonchudas: queria-me amplo, espaçoso, tal qual me sentia. Corpulento. Depois de tantos rodeios, confesso: optei-me gordo.
No rosto, um sorriso esquecido em alguma curva do dia anterior: impávido, incômodo, inimaginado.
E os cabelos? Curtoscompridoslisoscrespospartidosdeladoescorridos? Costeletas em L. Compridas, estreitas, até quase o queixo. Desta vez bigode. Descompromissadamente plano.
Algum suor nas têmporas, nenhum rubor no rosto. Amplos pulmões para furtar o fôlego dos passantes. Dedos inquietos, elegantes como gotas de mercúrio.
A perna me surge com a mesma tremedeira da primeira bronha. Circuncidado? Não? (Isso depois eu decido).
Levanto-me, atravesso o corredor e a sala. Sento-me ao piano. No ar, cinco linhas da pauta cruzadas às hastes da nota, riscas de giz. Toco alguns compassos. Acompanha-me um quarteto de cordas. Talvez um ligeiro espanto. Memória? Um papel timbrado repleto de garranchos, muitas vezes sobrepostos. De vez em quando a tinta se apaga.
Memória é um solfejo desafinado. Um pedaço de papel dobrado em quatro que cai de uma gaveta toda vez que ela se abre. E o sempre mesmo procedimento: recolho o papel, leio seu conteúdo, corrijo alguns acentos, devolvo-o a seu lugar e dele rapidamente me esqueço, até que desavisado abra a gaveta outra vez.
Tentando relembrar o rosto do pai, a partir de um retrato que não corresponde ao que trago na memória. Tão estranha essa missão: recordar algo que trago no nome, essa tatuagem que prescinde de corpo. Mais que cicatriz.
Pensamentos prolongados, arremessados às alturas: por vezes o pai me acena, o sorriso escondido na secura desse aceno, num impercebido franzir de lábios. Depois de dezessete anos, qualquer um desses gestos retorna-me solene. Inclusive a ordem de entrada da família no carro, no passeio de domingo. Decerto, o rosto não é o mesmo do retrato no criado-mudo.
Certa vez, a mãe reclamou que ronco. Não sei se o fazemos da mesma forma, mas à menção da palavra roncar, associo ao som que o pai emitia toda tarde no sofá cochilento. Roncar para mim era repetir a respiração do pai, seus travessões, pontos, vírgulas. Quando guri, imitá-la era meu mais freqüente passatempo.
Eu queria mesmo era contar uma estória de cavalinhos coloridos empinados num pasto. Ainda guri, comecei a escrevê-la até a quarta linha, quando errei uma palavra e percebi não haver borracha. A primeira rasura, entre o risco e a continuação do texto. Na costura, a agulha perfura novamente, repetidas vezes. Menores feridas.
Parágrafos depois, perdi o interesse pelos cavalos.
Deparo-me com uma escada. Amparado pelo corrimão, desço os degraus. Nunca imaginei ter que reaprender a andar. Um pé, depois outro, formigamento, alguma cãibra. Como se lesse uma fileira de proparoxítonas sem acento, seguida-mente, num fôlego só: impavidoincomodoinsolitointrepidopalidosimpaticomagico. Como se cantarolasse. De tão musicais, as palavras sem acento oscilam indistintas e quase tropeçam na soleira da porta. Dormentes.
Saio de chinelos, camisa de voile e calça surrada, parecendo fiel da Deus é Amor. Ladeira abaixo. Há um parque perto daqui. Girassol. Amarelo. Solitário, descalço.
É evidente que chove no final. E é claro que deito no chão pra molhar apenas metade de mim (costumo imitar os livros que leio). É claro, transparente como o céu que se abre após a chuva ligeira.
========
LÁPIS-BORRACHA
Erly Vieira Jr
Aí, sim, ele me deixou arrumar a bagunça que sempre fora a nossa casa. Quando chegou a vez de organizar a pasta de documentos, minhas exclamações eram incontidas: era a chance de redesenhar o passado. Comprei até um lápis-borracha, descompromissadamente adequado à ocasião.
Para começar, o registro de nascimento. Alterei o ano, para que ele tivesse hoje a idade de 22, e retornassem aquele cabelo curtinho, máquina dois na nuca, aquela penugem descendo o pescoço e as ainda charmosas olheiras após madrugadas sentadas ao meio-fio contando estrelas e esperando o primeiro ônibus.
Aproveitei para alterar a escritura da casa, incluir dois pavimentos, um canteiro de azaléias, uma horta de alface e manjericão no quintal de fundos, um quintal de fundos, cadeiras de vime, o gato esgarçando o novelo, um regador azul céu nas mãos dele. Transferi o endereço de Vitória para São Joaquim, a fim de possuirmos uma lareira, mas retornei de imediato a Vitória: ele sempre preferiu tardes ensolaradas. E a possibilidade de inesperar algum vento sul, esse conhecido de longa data.
Também risquei o gato: decidi que éramos alérgicos a felinos (sempre fui, diga-se de passagem).
E as cartas? Um telegrama do padrinho felicitando a aprovação no vestibular de veterinária, isto é, engenharia de alimentos, talvez administração com ênfase em comércio exterior. Na verdade, artes cênicas: quem sabe assim ele aprendesse a tornar mais convincentes suas ceninhas, como daquela vez em que saiu no meio da noite, pisando forte, “vou me embora, tá me ouvindo?”, e retornou cinco minutos depois, roupa rasgada, cadê o relógio, “fui assaltado, deixa eu dormir aqui”, e ninguém reparou a mochila nas costas, intacta, se eu fosse o ladrão, nem levava o relógio de camelô, só a mochila importada já rendia uns duzentos contos…
Os boletins escolares, embolorados. Já não se distinguiam as notas azuis das vermelhas. Oitava série — dentro deste, um bilhete pra mim, nunca enviado: “…uma vez mais sua voz líquida em meus lábios.” Piegas, obviamente.
Guardanapos de papel com números de telefone de outros amores, faturas atrasadas de cartão de crédito, prestações da calça de linho branca na qual ele derramou vinho no primeiro dia uso, lógico que foi de propósito, carteirinha do dízimo da quadrangular (quitado apenas o primeiro mês, fogo de palha que ele era…): num piscar de olhos meu foi como se nada disso houvesse existido. Inclusive os documentos do Fusca 76 vermelhinho que a gente cuidava como se fosse um filho, e que ele dirigia na noite em que derrapou na curva da BR-101 e colidiu com um Quantum quatro portas. E pensar que a ausência de sobreviventes rendera uma bela manchete de capa nA Gazeta da manhã seguinte…
========
MUITO LEVE
Erly Vieira Jr
…apesar de tudo é muito leve, já dizia Walter Franco. E vai ver é leve mesmo. Eu é que fico encucado demais com as coisas. Vai ver, não deveria. A gente já vive em meio a tanta histeria, a cada dia um novo hype, tem dia que eu me sinto um personagem de Zelig, em plenos anos vinte. Quinze segundos de coluna social diários, não mais que isso. E partir pra outra, que desta a gente cansou rapidinho.
Foi assim, nessa loucura toda, que percebi que essa ilha era a verdadeira Faketown. Vai me dizer que não? Depois me perguntam o porquê de andar pra cima e pra baixo com fones de ouvido a todo volume. Tem coisa que eu não entendo, vejam só, que nem quando inventaram de finalmente fazer um shopping aqui na cidade, e fizeram-no de costas pro mar. Esnobando as ondas, os rochedos e tudo o mais. Tinha que ser Faketown uma cidade assim.
Vou te contar um segredo. Um tempo atrás tentei ser poeta. Sim, poeta. Vê se pode? Fogo de palha que sou, fiz até dois versinhos, quer ver só:
naquele tempo, líamos acorrentados
acorrentados livros apátridas
Apesar do começo promissor, quase solene, não consegui ir adiante. Também, depois de apelar, jogando sem mais nem menos no meio do verso o tal do “apátridas” (e no plural, ainda por cima), arremessei o poema num beco sem saída. Ainda devo ter tentado por uns bons três meses, todo dia depois de chegar do trabalho, tomado o banho, umas duas horas sentado à escrivaninha, tentando continuar o poema. No início ainda era divertido, lembro que na sexta à noite na Lama eu soltei uma ou duas vezes na mesa do bar que tinha começado a escrever um poema, e quando eu falava nos acorrentados livros apátridas abriam-se sorrisos em todos os presentes à mesa, aquele tipo de sorriso cúmplice bastante ligeiro, interrompido por mais um gole da cerveja quase quente levada aos lábios. Como eu não bebo, mal imagino qual é a desse sorriso aí. Mas aceito com carinho, as pessoas pelo menos parecem muito simpáticas quando sorriem assim, ainda mais se usam óculos escuros de noite, né?
É que toda manhã invento uma desculpa para atravessar o dia. Lembro que, quando eu era criança, repetia os exercícios de Czerny e Hanon ao piano até aprender. Bolinha de isopor presa por um elástico à palma da mão, que é pra mantê-la o mais redonda possível. Porque pianista não tem mão esparramada no teclado não. É muita bolinha de isopor e alguma elegância, talvez de nascença.
Descompromissadamente pleno: é exatamente como me sinto agora.
E aí que um belo dia inventei de passar na biblioteca da Ufes, eu ainda era estudante e precisava de um livro pro fim de semana. Porque estudante você sabe como é, né? Nunca tem dinheiro pra nada, e ao final do mês já gastou o salário inteiro do estágio com porcaria. E fica trancado em casa, porque se for sair só tem o passe de ônibus pra ir e voltar. Por isso mesmo que eu inventava nessas horas de ir à biblioteca. Se a grana tivesse muito curta, saía com três livros debaixo do braço, que era o máximo que me permitiam levar, pra garantir que ia ficar em casa, quietinho, quietinho. Ainda não havia internet em casa: líamos desajeitadamente felizes, eu acho.
E numa dessas eu cheguei em casa na sexta à noite, tirei o fone do gancho pra não assumir que ia ficar em casa porque não tinha um tostão no bolso, e comecei a folhear um livro. Logo de cara fiquei puto com as várias passagens grifadas. Uma merda, isso. Quer riscar o livro, compra um só pra você. Porque livro pra mim tem que ser limpinho, sem nada que atrapalhe minha leitura. Grifou, danou. Não dá pra ler despreocupadamente, o olho vai direto no que tá marcado, jurando que é a passagem mais importante do texto. Aquela que a gente acaba lendo antes das outras. Detesto quando fazem isso, é chamar o leitor de burro.
Mas tinha uma coisa muito engraçada, pelo menos parecia ser engraçada àquela hora: era a forma como as passagens eram marcadas. Geralmente o povo grifa à mão livre, quase riscando por cima das letras, não é verdade? Esse daí devia ser virginiano, porque era tudo arrumado e esquisito demais. Primeiro, porque os riscos eram à régua. Retinhos, retinhos. Quase assépticos. Segundo, que nunca ocupavam a linha inteira, mesmo quando o parágrafo inteiro estivesse marcado. Coisa de doente, pensei. Ainda mais quando me toquei que o livro não era teórico[1]. Era um romance. Olhos azuis, cabelos pretos, da Marguerite Duras. Ai, não vá pegar no meu pé só porque eu andei lendo Marguerite Duras, né? Eu sei que você curte coisa pior. Lya Luft eu tenho certeza. É a sua cara. Código Da Vinci também, que eu vi a nota fiscal na lixeirinha do banheiro dia desses quando fui à sua casa. Vai negar, é?
O negócio foi que eu nem percebi que estava lendo apenas as passagens grifadas. Sério. Porque o danado fez isso muito bem feito. Um tanto cafona às vezes, marcando coisas do tipo “como um amor que tem um começo e um fim, inesquecível quando o esquecemos”, mas também sabendo ser tão cool quanto uma letra do Bowie, que nem quando grifou numa mesma página “olhos tão azuis” no comecinho da página e “meio trágicos” na antepenúltima[2] linha. Mas a minha passagem predileta era “para dispor do seu tempo como decidi”, bem lá na página vinte e cinco. Mal sabia eu que o recado era direto pra mim.
Confesso que o livro ficou menos tedioso desse jeito, resumido às passagens grifadas. Até tentei ler o texto integral, mas não passei da quarta página. Estava ansioso demais para saber como seguia o encadeamento de trechos sublinhados de forma tão teimosamente retilínea. Tanto que nem estranhei o fato de, ao levar pra casa um outro livro da biblioteca na semana seguinte, ter me deparado novamente com as passagens meticulosamente sublinhadas. O espanto inicial era aos poucos substituído por um certo deboche meu. Queria saber o que ele tinha reservado pra mim desta vez.
Ele. Desde o princípio eu imaginei que era ele, e não ela. Nunca cogitei que fosse mulher simplesmente por aparentar aquele tipo de cumplicidade masculina que a gente conhece muito bem. E assim eu fui levando a coisa, meio que na brincadeira, à medida que mergulhava nos livros grifados por esse fulano aí.
Aí eu passei a vasculhar a biblioteca inteira atrás de outros livros por ele sublinhados. Eu parecia um adolescente tímido, daqueles que tentam de toda forma descobrir algo sobre a garota de quem se está afim, mas nunca arranja coragem de chegar junto. Eu não chegava junto, de jeito algum. Até porque eu nem imaginava como podia fazer isso. Mas, ainda assim, dava um jeito de me manter no jogo. Eu não admitia, mas no fundo achava que os grifos eram todos endereçados a mim. E nessa eu devorei livros e mais livros de Bataille, Clarice, Hilda, Barthes, Fucô[3]. Tudo por causa das citações. E meu tempo todinho era dedicado a isso, mal pude perceber. Eu achava que o negócio era comigo. Meu e de mais ninguém. Não havia outro motivo que explicasse grifar aquela passagem de Fim de caso, do Graham Greene, bem lá na página sessenta e um: “Se este meu livro deixa de seguir um curso reto é porque eu estou perdido numa estranha região, e não tenho nenhum mapa. Às vezes me pergunto se alguma coisa do que estou escrevendo é verdadeira”. Pelo menos eu acreditava nisso.
Aliás, Fim de caso passou a ser meu livro de cabeceira. Esse eu comprei no sebo em frente à Ufes, só porque estava todo marcado, igualzinho aos da biblioteca. Era através dele que dialogávamos, eu e o grifador, silenciosamente, todo dia meia hora antes de dormir. Talvez meu sorriso ao degustar algum novo trecho anunciasse nessas horas ensolaradas bolhas de sabão. Talvez. Mas também, não tinha como passar batido por um trecho desses: “este nervo que estremece pertence a mim e a mais ninguém”. Era o tipo de coisa que eu adorava ler, soava tão pretensioso que acabou virando uma espécie de profissão de fé daqueles dias.
E quando eu me deparei com isso daqui? Saca só: “Quando se está muito desamparado, pode-se rezar por um milagre. Eles acontecem para os pobres, e eu estava pobre”. Página oitenteoito. Eu me senti tão solidário ao recado que começava a sentir um ligeiro descontrole[4] quando ia à biblioteca e percebia que algum dos livros por ele grifado havia sido emprestado. Afinal, aquele era um segredo só nosso, de mais ninguém, e seria insuportável ter que olhar nos olhos de outra pessoa e admitir que eu não podia mais viver sem devorar aquelas passagens sublinhadas.
Bom mesmo era passar horas folheando desavisadamente cada um desses livros. Reler as passagens destacadas, degustar sílaba por sílaba. Comparar diversas citações em livros bastante diferentes entre si. Fazer aquele joguinho erótico da menina do conto da Clarice: esconder o livro em algum lugar da casa, fingir que não lembrava onde tinha deixado, fingir algum espanto ao finalmente encontrá-lo. Fitar as palavras retilineamente sublinhadas até perder a nitidez e embaralhar tudo na retina. Entorpecido, adormecer. Como quem repousa a cabeça num abraço.
Cheguei ao ponto de ficar horas sentado à mesa mais próxima do balcão de empréstimo, vigiando os livros que eram devolvidos enquanto fingia estudar um pesado volume do Código Civil. A cada quinze minutos eu me levantava da mesa, vasculhava os livros devolvidos discretamente, tentando encontrar algum volume grifado, na esperança de ter sido devolvido há pouco por ele. Eu guardava a fisionomia de cada usuário que se dirigia ao balcão de empréstimo, quem sabe algum desses não seria o meu tão sonhado cúmplice quase que diário. Tudo em vão, embora eu bebesse dessa sede em goles cada vez mais fartos. Eu ficava seis, às vezes oito horas seguidas fingindo tomar notas do livro. Ele nunca aparecia. E, se aparecia, era quando eu não estava mais lá.
Dia desses, eu me deparei com um livro de poemas que possuía apenas um par de versos sublinhados[5]: “Agora tudo é novo e ao longe nos conduz”, era o que dizia. Fiquei umas duas ou três semanas tentando entender o que diabos ele queria dizer com isso. E quando algo fica assim, mal-resolvido, eu fico irritadiço, sinuoso, insuportável, deus-me-livre. Acabou que ontem eu devolvi o livro, dando-me finalmente por vencido. Passei a noite em claro, semi-árido. Hoje bem cedo, voltei à biblioteca, retirei o livro da estante. Abri na tal página. Devo ter passado umas duas horas tal qual um pateta, tentando extrair algum significado daquele trecho, e nada nada nada nada. Nada.
Foi aí que uma leve brisa fez virar umas duas páginas do Graham Greene, que eu também deixara aberto sobre a mesa, revelando uma nova passagem sublinhada. Ela começa nas duas últimas palavras da página, estendendo-se pela seguinte, mas eu ainda não tive coragem de avançar a leitura. Eu seria capaz de jurar que essa passagem não havia sido marcada anteriormente. Seria capaz de jurar.
Tanto que estou perplexo até agora. Ofegante. Medo de virar a página e me deparar com a inesperada sinceridade de minha têmpora banhada de suor.
Peraí que agorinha mesmo eu leio pra você, eu acho. Só mais um bocadinho que eu recupero o fôlego. Deixa só eu limpar as lentes dos óculos, pigarrear um pouquinho, duas ou três vezes[6], talvez encher os pulmões de ar. Um, dois, três. Ah, agora sim, podemos continuar.
[1] No campo da literatura, só livro da Clarice é que anda grifado por aí. O dia em que aparecer um exemplar de Água-viva sem um rabisco sequer, uma anotação nas margens ou coisa que o valha, acho que o mundo acaba.
[2] Talvez não fosse exatamente a antepenúltima, mas é que eu acho essa palavra uma das mais fascinantes da língua portuguesa, tanto que eu dou um jeito de usá-la a toda hora.
[3] Nossa Senhora das Flores eu li também. Acho que até tinha alguns Borges no meio dessa leva, e uns Lucien Green também, mas desse aí eu não gostava muito não. Pior foi quando tive de atravessar aquele trecho em francês dA montanha mágica, dicionário ao lado para me salvar nessas horas, que o danado marcou quase tudo, tirando aquela frase mais famosa (“l’amour n’est rien, s’il n’est pas de la folie, une chose insenseé…”).
[4] Cf. Greene, Graham. Fim de caso, à página 50: “O ciúme, assim eu pensava, só existe aliado ao desejo”.
[5] O começo da primeira estrofe.
[6] Outra de minhas expressões prediletas é essa daí: “duas ou três”…
2 respostas Até agora ↓
NOVIDADES « disconnect the dots // Sexta-Feira, Julho 25, 2008 às 2:44 pm |
[...] -sse [...]
Erly Vieira Jr. « Bandejão 104.7 // Segunda-feira, Maio 11, 2009 às 11:41 pm |
[...] do campo cinematográfico, Vieira Jr também se aventura pelo campo da Literatura. O livro –sse, financiado pela verba da Secult-ES, é um exemplo disso. Por produzir diversos conteúdos na área [...]